Ora viva! ✌️
Esta crónica é resultado de uma conversa com a minha bestie Rosa Catita (Rosa Sena para os demais), que lançou a ideia de eu escrever sobre o lado paradoxal (e hipócrita, porque não dizer?) da comparação.
Segundo ela, era interessante expor uma contradição social curiosa: condenamos a comparação quando ela nos faz desejar mais, mas elogiamos a comparação quando ela nos faz sentir que já temos o suficiente. Por considerá-lo um assunto deveras pertinente, eis-me agora a intentar expor por escrito aquilo que ia na alma da Catita quando me lançou o desafio.
De facto, dizem-nos frequentemente para não nos compararmos com os outros. A comparação, apregoam, é uma fonte inesgotável de infelicidade. Olhamos para quem tem mais sucesso, mais dinheiro, mais beleza ou mais reconhecimento e acabamos a medir a nossa vida pela régua alheia.
A recomendação parece sensata: cada um tem o seu percurso, as suas circunstâncias e o seu ritmo. Mas a verdade é que esta condenação da comparação tem uma exceção curiosa. Quando nos comparamos com quem está melhor do que nós, a sociedade apressa-se a advertir-nos. "Não faças isso!", "Estás a ser injusto contigo mesmo", "Cada pessoa tem a sua história."
De pais, professores, educadores, amigos, coaches, mentores, líderes religiosos e afins ouvimos o tempo todo para não compararmos a nossa vida com a do fulano ou sicrano. Contudo, quando nos sentimos insatisfeitos, há sempre alguém para sugerir que olhemos para quem está em piores condições. Como num passe de mágica, a comparação deixa subitamente de ser um problema e passa a ser um exercício de sabedoria.
Se estás descontente com o teu salário, lembra-te de quem não tem emprego. Se te queixas da tua casa, pensa em quem não tem teto. Se a tua vida parece difícil, olha para quem enfrenta dificuldades maiores. Neste caso, a comparação não só é permitida como é aconselhada, legitimada mesmo. O "há coisas piores" de que todos nós estamos fartos de ouvir dizer afigura-se como verdade absoluta.
Afinal, não é a comparação em si que é censurada. O que se censura é a direção da comparação. Comparar para cima é perigoso porque desperta ambição, inveja, ingratidão ou insatisfação. Comparar para baixo é virtuoso porque produz gratidão e conformidade. Num caso, a comparação alimenta o desejo de mudar; no outro, ajuda-nos a aceitar o que já temos.
Talvez por isso o conselho seja tão popular. A comparação descendente funciona como um analgésico emocional que reduz a dor sem necessariamente resolver a causa. Faz-nos sentir melhor, mas não nos diz se aquilo que nos incomoda é legítimo ou não. Ora, não é suposto sentirmo-nos bem por saber que existem outros em situações piores, assim como não é suposto sentirmo-nos mal por vermos outros a serem ou terem mais que nós. Também não é suposto regularmos a nossa vida em função do que o outro está a passar ou viver. Porque o que é do outro é do outro, cada um de nós calça o seu próprio sapato, tem a sua própria estória de vida.
Reconhecer os nossos privilégios é uma forma saudável de ganhar perspectiva. O problema surge quando essa perspectiva é usada para desqualificar qualquer aspiração. Afinal, se apenas olharmos para quem tem menos, acabaremos por considerar excessivo qualquer desejo de melhoria.
Por outro lado, comparar-nos com quem está melhor também não é necessariamente um vício. Muitas conquistas humanas nasceram precisamente dessa comparação. Alguém observou uma realidade superior à sua e perguntou: "Porque não eu?" A comparação tanto pode gerar inveja, como pode gerar inspiração.
Vista a coisa sob esse prisma, talvez a solução não esteja em abolir as comparações, algo provavelmente impossível, mas em compreendê-las. Comparar é uma função natural da consciência humana. Fazemo-lo para avaliar a nossa posição no mundo, para definir objetivos e para interpretar a nossa experiência.
O verdadeiro problema não é comparar. É permitir apenas as comparações que nos consolam e condenar as que nos desafiam. Porque, no fundo, a sociedade não parece dizer-nos "não te compares". Parece dizer-nos algo mais específico: compara-te apenas na direção que te faça aceitar a tua condição.
Termino com a seguinte reflexão: se a comparação é tão nociva, porque razão a recomendamos sempre que ela produz conformismo?
Au revoir e até quinta!
