by Sara Sarowsky

Do antigo e premiado 'Ainda Solteira', nasce este novo espaço de crónicas, contos, confissões e confusões da autora Sara Sarowsky.

A grandeza dos "Tubarões Azuis" só se equipara à morabeza do povo cabo-verdiano

Agora o mundo nos conhece, respeita e admira como um "grande". Só depende de nós continuar a desafiar o improvável e assegurar um lugar entre os maiores, entre os melhores.

Ora viva! ✋

Não é de todo minha intenção aproveitar a "febre azul" que neste momento assola o planeta para angariar likes ou seguidores. No entanto, na qualidade de berdiana de berço, nacionalidade, alma e coração, sinto-me no direito de endereçar umas sentidas palavras à seleção nacional de Cabo Verde, cuja prestação no primeiro jogo da sua história numa copa do mundo de futebol embasbacou tudo e todos. Inclusive a mim.

Eu sei que já foi (praticamente) tudo dito sobre a incrível prestação di nos rapazes. Por personalidades muito mais capacitadas do que eu até. Mesmo assim, em nome do patriotismo, da morabeza e do orgulho nacional, cumpre esta crónica o mais prazeroso dos deveres de prestar uma merecida e humilde homenagem aos "Tubarões Azuis", com uma dose extra alocada ao Vozinha, o nome que merecidamente anda na boca do mundo (seja ele virtual, seja ele real). 

Falar da nossa seleção é falar da nossa gente. Falar da prestação da nossa equipa de futebol é falar da identidade, da força, da coragem, da união, da resiliência, da perseverança, da humildade e da alma do nosso povo. Porque ser cabo-verdiano é ser tudo isso, e mais um pouco. Só quem é, ou convive de perto com os crioulos, é capaz de compreender a cem por cento o que quero dizer.

Mais do que o amor incondicional ao futebol, desperto no longínquo ano 1990, aquando da Copa de Itália, tinha eu apenas 12 anos, o meu amor aos "Tubarões Azuis" é uma consequência mais do que natural do meu amor pelo país que me viu nascer e pelo qual nutro desde sempre um orgulho inarrável e imensurável.

Quando soube que estaríamos no Mundial FIFA 2026, quase não acreditei! Afinal, por residir no estrangeiro há largos anos, não consegui acompanhar de perto a campanha de qualificação, a meu ver, impecável. Esse momento, histórico e inédito, foi a primeira bofetada em todos aqueles que nos subestimavam (indjutunu, como se diz em bom badiu).

É verdade que não passamos de um pequeno ponto no mapa; inclusive, há cartografias que nem sequer incluem as nossas dez ilhas. De facto, somos pequenos em dimensão geográfica, o que se traduz numa insignificante relevância político-diplomática. Contudo, quem nos conhece sabe que o que nos falta em tamanho nos sobra em garra e paixão. Aí somos enormes! 

De boca cheia, digo que a grandeza da nossa seleção só se equipara à morabeza do nosso povo! Somos conhecidos mundialmente pela nossa arte de (bem) estar na vida, e isso reflete-se na forma como os nossos jogadores atuam e se relacionam em campo.

O momento em que a nossa bandeira foi levantada no meio das maiores nações do futebol é algo que vou guardar para sempre na memória. Como a maioria dos cabo-verdianos, lágrimas vieram-me aos olhos e o peito quase que explodia de emoção. Mal sabia eu que o que era suposto ser um jogo difícil perante a principal candidata ao título de campeão (na minha opinião) marcaria o início do momento mais apoteótico da história do povo cabo-verdiano (depois da independência nacional, obviamente).

Do jogo em si só vou dizer o seguinte: que performance! A cada defesa, ou seja, a cada golo negado à Espanha, sentia Cabo Verde a vibrar junto no mesmo ritmo da batida do coração. Os nossos jogadores, verdadeiros guerreiros, mostraram que mais importante que o pedigree do adversário é a força do acreditar, do querer, do fazer... Mostraram igualmente que estão à altura do desafio e prontos para dar tudo por este sonho. Afinal, não jogam apenas por eles mesmos, jogam por cada cabo-verdiano que vive no arquipélago e na diáspora, por cada voz que clama por vitória e por cada coração que pulsa com esperança.

Estamos todos conectados, desafiando as probabilidades e as estatísticas, unidos no propósito maior de justificar a nossa presença na competição, de honrar o nosso povo, de dignificar a bandeira nacional, no fundo, de elevar ao mais alto nível o nome de Cabo Verde. Estou em crer que em cada canto do planeta onde há um cabo-verdiano houve um coração que bateu forte, uma alma que acreditou, um orgulho que ressaltou... A nossa nação e a nossa morabeza estavam sendo celebradas, e isso é algo que vai além de qualquer vitória.

A morabeza é a essência, a identidade do povo cabo-verdiano, e isso se reflete na forma como os nossos heróis azuis atuam dentro e fora do campo. Com sentido de pertença, merecimento, humildade, respeito, alegria, competência, determinação e fair-play. Foi isso que o mundo viu no dia 15 de junho, em Atlanta, nos Estados Unidos. E é isso que o mundo vai continuar a ver após o final do torneio: que a grandeza de Cabo Verde não se mede pelo tamanho do seu território, mas sim pelo tamanho da sua morabeza (expressão nativa que resume na perfeição tudo o que se viu dentro no relvado, nas bancadas, nas fanzones, nos posts, nas storys, nas notícias, nos comentários e afins). 

Sempre o fomos, mas agora o mundo nos conhece, respeita e admira como um "grande". Porque só depende de nós brilhar por mérito próprio, trilhar o caminho do sucesso, desafiar o improvável e assegurar um lugar entre os maiores, entre os melhores!

Viva o futebol ⚽️ ! Viva os "Tubarões Azuis"! Viva Cabo Verde 🇨🇻! Viva o Brasil 🇧🇷 (que nos pôs na boca do mundo)!

Au revoir e até para a semana!

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