Ora viva! ✋
É do conhecimento da blogosfera que durante largos anos fui uma solteira crónica, convicta e integrada. À parte umas quantas tentativas fracassadas, assumo que desde 2010 não vivia um relacionamento romântico digno desse nome. É igualmente do conhecimento geral da nação virtual que isso nunca representou um sério problema para mim, já que eu sempre soube ser feliz comigo mesma.
Quis o destino que nessa nova vida que abracei em agosto de 2024 viesse incluído um amor, que chegou na pessoa do Ste, o meu Ste. De coração cheio reconheço que temos uma relação assente na sinceridade, no respeito e na honestidade. Ou seja, uma relação saudável e verdadeira. Tão verdadeira que a vivemos por inteiro; com tudo o que isso implica. E no caso dele, implica pacote completo: dois filhos, uma ex, uma mãe idosa, assim como amigos, colegas, vizinhos, conhecidos e até desconhecidos. Graças aos céus que não inclui pets, que aí já seria demais para mim 😉.
Apesar de muito tempo ausente do mercado amoroso, e de estar a viver uma experiência inédita (jamais tinha andado com alguém com filhos), estive sempre consciente de que namorar na idade adulta implicasse, impreterivelmente, aceitar, acolher e integrar a bagagem do outro. Até aos 40 anos, não hesitava em apregoar que não me interessava um parceiro com "cadilhos", até porque, numa boa parte dos casos, estes costumam ser sinónimos de "sarilhos".
Acreditava eu que o problema não eram as crias, mas antes as respetivas progenitoras, criaturas do mal que respiram com o único propósito de infernizar a vida daquela que a procede. Escusado será dizer que essa minha percepção tinha como base experiências de terceiros, sustentadas por dramas retratados - e perpetuados - tanto pela literatura como pelo cinema e televisão.
No início deste meu namoro com o Ste não vi nenhum sinal de alerta em relação a esta questão, até porque ele já estava separado da mãe dos seus filhos há vários anos, tendo, inclusive, tido outros relacionamentos após a separação. Agora, volvidos 12 meses, não posso ignorar que a sua bagagem começa a pesar sobremaneira, sobretudo pela discrepância flagrante entre as nossas realidades.
Apesar de a caminhar para os 50 anos, eu cheguei à relação com um simples trólei, se assim posso dizer. Já ele, chegou com trólei, mochila às costas, várias malas de porão e até uma bagagem de formato especial.
Desde o primeiro momento que a minha leveza contrastou com o fardo dele. Residia aí a fonte da nossa magia. No calor da paixão inicial, acreditei que seríamos capazes de gerir essa desigualdade, de modo a encontrar o equilíbrio desejável a uma relação feliz.
Ingenuidade minha... agora percebo que não é assim que a banda toca. Hoje constato que quando uma das partes tem filhos e a outra não, existe um território inteiro que precisa de ser descoberto e desbravado. Em conjunto e em sintonia. E que, por mais boa vontade que exista, há momentos de desencontro. Momentos em que uma das partes não compreende totalmente a realidade da outra. Não porque não queira, mas porque a desconhece.
Quem tem filhos sabe que há uma parte da vida que deixou de lhe pertencer exclusivamente. O tempo, a energia, as preocupações e até os planos mais simples passam a ser vivenciados em função daqueles que deles dependem. Por outro lado, quem não tem filhos é obrigado a lidar com desafios que lhe ultrapassam, com realidades que nunca escolheu, com experiências que nunca viveu.
Como o texto já vai para lá de longo, comprometo-me a retomar o tema noutra altura. Até lá, deixo-te com aquele abraço amigo e o desafio para partilhares comigo a tua opinião e ou experiência pessoal em relação a este assunto.
Au revoir!
