by Sara Sarowsky

Do antigo e premiado 'Ainda Solteira', nasce este novo espaço de crónicas, contos, confissões e confusões da autora Sara Sarowsky.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

É preferível correr, mesmo que sujeito a ser pego pelo bicho, do que ficar e ser comido por ele. Até porque o ser pego não significa necessariamente ser comido.

Ora viva! 👋

Há já um bom tempo que carrego o desejo de te desafiar a refletir comigo sobre o sentido da vida, analisado à luz do célebre "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come".

Confesso que esta frase sempre me intrigou, ao ponto de roçar o fascínio. Celebrizada por Ney Matogrosso na canção Homem com H, o título do texto dramatúrgico dos brasileiros Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, publicado em 1966, põe a nu as encruzilhadas da vida, ou seja, os momentos críticos em que somos obrigados a tomar uma atitude, ainda que nenhuma das ações pareça ser capaz de nos salvar.

No longínquo ano de 2014, fui contratada como social media manager de uma apresentadora do canal SIC. Foi uma experiência profissional traumatizante, sob vários prismas, sobretudo o da ética e da deontologia profissional. Como tudo na vida tem o seu lado positivo, aprendi muito ao longo dos nove meses em que trabalhei para ela. Inclusive, foi após deixar esse maldito emprego que criei o blog Ainda Solteira.

De entre as inúmeras máximas que a dita cuja apregoava, a maior parte delas fakes, há uma em particular que me ficou tatuada na mente e que ainda hoje dita a minha postura tanto na esfera pessoal como na profissional. Defendia a tv star que "mais vale uma má decisão do que decisão nenhuma".

Muito provavelmente por defeito de fabrico, a maioria de nós revela uma relutância natural em tomar decisões. Mesmo quando não há como evitar, relutamos, adiamos, procrastinamos o máximo que podemos, como se, num passe de mágica, a vida reclamasse para si uma tarefa que é nossa e de mais ninguém.

Decidir exige que abramos mão de qualquer coisa, que deixemos algo pelo caminho, que saiamos da zona de conforto, que enfrentemos o desconhecido, que assumamos a responsabilidade, que deixemos de vestir a pele de vítima. Trata-se de um processo doloroso, que exige coragem, determinação, desapego, mas sobretudo uma fé inabalável de que o porvir será sempre melhor do que o agora.

Qualquer mortal com um mínimo de senso da realidade sabe bem que a vida não oferece nem certezas nem garantias, apenas oportunidades e possibilidades. É exatamente por isso que nos custa tanto decidir. E quanto mais impactante for essa tomada de decisão, mais doloroso é o processo.

Conscientemente, sabemos que o atual não é bom, queremos algo melhor, sentimos que merecemos esse "algo melhor" e que a situação como está não pode continuar. O problema é o subconsciente, cujo peso no processo de tomada de decisão é brutal. Por mero instinto de sobrevivência, ele agarra-se feito lapa na rocha à situação atual, por medo do que não conhece, ou seja, do que não controla.

Estou certa de que já ouviste dizer que a magia acontece fora da zona de conforto. Na primeira pessoa, posso assegurar-te que é a mais pura verdade. De todas as vezes que ousei abrir mão do status quo e abraçar o desconhecido coisas maravilhosas aconteceram na minha vida.  

É saindo da zona de conforto que descobrimos a real dimensão da nossa força e desenvolvemos recursos valiosos. Por isso, meu bem, não temas tomar decisões, teme sim perpetuar situações que não te fazem feliz, que não te acrescentam mais e melhor à tua vida, que não te trazem paz de espírito, que não te iluminam a alma nem carregam consigo um sorriso. Quanto mais cedo fizeres o que tens a fazer, mais cedo vais descobrir em ti a coragem necessária para olhar o bicho nos olhos e lutar com todas as tuas forças para não seres comido por ele. 

É preferível correr, mesmo que sujeitos a ser pegos pelo bicho, do que ficar e sermos por ele comidos. O ser pego pelo bicho não significa necessariamente ser comido por ele. Ao invés do fim, pode muito bem significar o início de uma batalha (desigual, é certo), mas cujo desfecho quase sempre surpreende pela positiva. Isto porque reside em cada um de nós a força, a resiliência e a capacidade para desafiar o improvável, tal como prova a história de David e Golias.

Deixo-te com aquele abraço amigo de sempre e o repto para confiares no poder transformador da vida.

0