Ora viva! 🖐
Eis-me de volta com a segunda parte da crónica Namorar depois dos 40: um desafio à prova dos filhos, para tua informação, o post com as melhores estatísticas desde a criação deste blog.
Retomando o fio à meada, dita a minha experiência de marinheira de primeira viagem numa relação com filhos que só o sentimento que une dois corações não é suficiente para levar a bom porto um romance... por mais intenso e profundo que este seja. É certo que o amor ajuda, e muito, mas por si só não garante a felicidade conjugal.
O que realmente sustenta e solidifica um relacionamento amoroso é o investimento inicial, o compromisso emocional, a decisão de fazer dar certo e a determinação para superar os obstáculos. Dito de outra forma, é a capacidade de discordar sem condenar, questionar sem atacar, ouvir sem amuar, compreender sem julgar, aceitar sem contestar, amar sem exigir.
Este um ano de namoro com o Ste ensinou-me que amar alguém com uma realidade diferente exige da minha parte uma dose extra de humildade e humanidade. Obrigou-me a deixar cair a ilusão de que a nossa relação assenta em apenas dois corações. Fez-me ver que as suas crias não têm que ser um obstáculo à nossa felicidade... desde que feitos os necessários ajustes a uma convivência pacífica e respeitosa entre todos os intervenientes.
Se é facto assente que os filhos são para sempre, não sendo possível bani-los, muito menos desligar o cordão emocional que os une aos progenitores, deve ser igualmente facto assente que àquele que chega cabe estar ciente de que terá pela frente batalhas diárias, por vezes ingratas, inglórias, injustas. Que não faltarão momentos complicados, situações tensas, sentimentos contraditórios, vontades opostas, personalidades distintas e egos inflamados.
Àquele que deseja ficar e conquistar um espaço nas suas vidas, importa reter que o desafio não está na existência dessas diferenças, mas na forma como elas são geridas. É preciso comunicação honesta. É preciso empatia. É preciso humildade. É preciso humanidade. É preciso altruísmo. É preciso que quem tem filhos não espere que o outro compreenda tudo automaticamente; e que quem não tem filhos não encare as crianças como concorrentes pela atenção ou pelo afeto.
Aos 40 anos é de se pensar que já aprendemos com os erros, que sabemos o que queremos, que deixámos para trás as inseguranças da juventude e que os joguinhos mentais já não fazem sentido. Em teoria, acreditamos estar mais preparados para amar. A verdade é que nessa idade já não é possível apaixonarmo-nos apenas pela pessoa. Apaixonamo-nos pelo pacote todo: a vida que ela construiu, as escolhas que fez, as responsabilidades que assumiu, as marcas que carrega e os momentos felizes que augura.
Amar alguém nesta fase da vida é aceitar que existem compromissos anteriores a nós, espaços já ocupados, afetos que não controlamos e prioridades que nunca iremos substituir. Num constante exercício de adaptação, maturidade e flexibilidade, percebemos que o amor não perde espaço por ser partilhado, apenas ganha uma nova configuração, assume um outro significado.
Hoje vejo os relacionamentos de uma forma diferente: menos idealizada, contudo, mais bonita. Porque já não procuro alguém que se encaixe perfeitamente na minha vida; antes alguém que esteja disposto a construir uma ponte entre duas vidas que já existiam antes de se encontrarem. E, para mim, é aí que começa o amor adulto, o amor consciente, o amor com propósito, o verdadeiro amor.
E talvez a grande lição seja esta: o real desafio não é encontrar alguém para amar, mas sim encontrar alguém para construir um amor. Alguém com quem valha a pena aprender a lidar com as imperfeições inevitáveis de duas vidas já vividas. Amar depois dos 40 não é começar uma página em branco, é aprender a escrever uma nova história sem apagar os capítulos já escritos.
Por hoje é tudo. Conto estar de volta na quinta-feira para mais um momento de partilha. Até lá deixo-te com aquele abraço amigo de sempre.
Au revoir!
